Um espaço de opinião e reflexão, que me permite partilhar os meus pensamentos, frustrações e alegrias. Mas aviso desde já, se pensam aprender alguma coisa aqui, vão ficar completamente desiludidos.
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sábado, 28 de maio de 2011

Heroísmo?

«Vou contar-te um caso dramático. Já ouviste falar das térmitas, essas formigas-brancas que, em África, constroem formigueiros impressionantes, com vários metros de altura e duros como pedra. Uma vez que o corpo das térmitas é mole, por não ter a couraça de quitina que protege os outros insectos, o formigueiro serve-lhes de carapaça colectiva contra certas formigas inimigas, mais bem armadas do que elas. Mas por vezes um dos formigueiros é derrubado, por causa de uma cheia ou de um elefante (os elefantes, que havemos nós de fazer, gostam de coçar os flancos nas termiteiras9. A seguir as térmitas-operário começam a trabalhar para reconstruir a fortaleza afectada, e fazem-no com toda a pressa. Entretanto, já que as grandes formigas inimigas se lançam ao assalto. As térmitas-soldado saem em defesa da sua tribo e tentam deter as inimigas. Como nem no tamanho nem no armamento podem competir com elas, penduram-se nas assaltantes tentando travar o mais possível o seu avanço, enquanto ferozes mandíbulas invasoras as vão despedaçando. As operárias trabalham com toda a velocidade e esforçam-se por fechar de novo a termiteira derrubada… mas fecham-na deixando de fora as pobres e heróicas térmitas-soldado, que sacrificam as suas vidas pela segurança das restantes formigas. Não merecerão estas formigas-soldado pelo menos uma medalha? Não será justo dizer que são valentes?
                                                                                                                                                           
Mudo agora de cenário, mas não de assunto. Na Ilíada, Homero conta a história de Heitor, o melhor guerreiro de Tróia, que espera a pé firme, fora das muralhas da sua cidade, Aquiles, o enfurecido campeão dos Aqueus, embora sabendo que Aquiles é mais forte do que ele e que provavelmente vai matá-lo. Fá-lo para cumprir o seu dever, que consiste em defender a família e os concidadãos do terrível assaltante. Ninguém tem dúvidas: Heitor é um herói, um homem valente como deve ser. Mas será Heitor heróico e valente da mesma maneira que as térmitas-soldado, cuja gesta milhões de vezes repetida nenhum Homero se deu ao trabalho de contar? Não faz Heitor, afinal de contas, a mesma coisa que qualquer uma das térmitas anónimas? Porque nos parece o seu valor mais autêntico e mais difícil do que o dos insectos? Qual é a diferença entre um e outro caso?
Muito simplesmente, a diferença assenta no facto de as térmitas-soldado lutarem e morrerem porque têm que o fazer, sem que possam evitá-lo (como a aranha come a mosca). Heitor, por seu lado, sai para enfrentar Aquiles porque quer. As térmitas-soldado não podem desertar, nem revoltar-se, nem fazer cera para que as outras vão em seu lugar. Estão programadas necessariamente pela Natureza para cumprirem a sua heróica missão. O caso de Heitor é disitnto. Poderia dizer que está doente, ou que não tem vontade de se bater com alguém mais forte do que eles. Talvez os seus concidadãos lhe chamassem cobarde e o considerassem insensível ou talvez lhe perguntassem que outro plano via ele para deter Aquiles, mas é indubitável que Heitor tem a possibilidade de se recusar a ser herói. Por muita pressão que os restantes exercessem sobre ele, ele teria sempre maneira de escapar daquilo que se supõe que deve fazer: não está programado para ser herói, nem o está seja que Homem for. Daí que o seu gesto tenha mérito e que Homero nos conte a sua história com uma emoção épica. Ao contrário das térmitas, dizemos que Heitor é livre e por isso admiramos a sua coragem.»

Ferrnando Savater, Ética para um Jovem, Ed. Presença, Lisboa, pp. 21-22

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Alegoria da Caverna

«Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles: entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género de tapumes que os homens dos “robertos” colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
- Estou a ver – disse ele.
- Visiona também, ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objectos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
- Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que falas – observou ele.
- Semelhantes a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que nestas condições, eles tenham visto, de si mesmos e dos outros, algo mais que as sombras projectadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
- Como não – respondeu ele -, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida’
- E os objectos transportados? Não se passa o mesmo com eles?
- Sem dúvida.
- Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objectos reais, quando designavam o que viam?
- É forçoso.
- E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
- Por Zeus, que sim!
- De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições pensariam que a sombra dos objectos era a verdade.
- É absolutamente forçoso – disse ele.
- Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso sentiria dor, e o encadeamento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objectos que passavam, o forçasse com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objectos vistos outrora eram mais autênticos que os que agora lhe mostravam?
- Muito mais – afirmou.
- Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
- Seria assim – disse ele.
- e se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do sol, não seria natural que ele se doesse e se agastasse, por assim ser arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos encadeados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objectos?
- Não poderia, de facto, pelo menos de repente.
- Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior [que está fora da caverna]. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objectos, reflectidas na água, e, por último, para os próprios objectos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
- Pois!
- Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas ele mesmo, no seu lugar.
- Necessariamente.
- Depois já compreenderia, acerca do Sol, que ele é que causa  as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo [no interior da caverna].
- É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
- E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do “saber” que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
- Com certeza.
- E as honrar e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objectos que passavam, e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele [que havia sido libertado] teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo “servir junto de um homem pobre, como servo da gleba” e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
- Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.
- Imagina ainda o seguinte – prossegui eu. – Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
- Com certeza.
- e se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter  subido ao mundo superior estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?
- Matariam, sem dúvida – confirmou ele.»

Platão, República, 514ª-517ª, Ed. Calouste Gulbenkian, Lisboa

terça-feira, 24 de maio de 2011

Palestiniano Dá Vida a Quatro Israelitas

Estava a folhear umas coisas que tinha lá por casa e encontrei isto. Achei que devia partilhar. Pode ser que inspire alguém.

«”O meu coração é árabe”, poderá afirmar Cohen, salvo por Mazen Julani, morto por um colono.

Um palestiniano, morto por um colono, deu a vida a quatro israelitas. A família de Mazen Julani, oriundo de Hebron, afirma que a doação dos seus órgãos “foi simplesmente um acto humanitário” e não uma mensagem política.
A situação não é inédita, mas assume um especial significado quando ocorre num momento em que o ódio, raiva e dor parecem afastar cada vez mais os dois povos. Julani, de 32 anos, encontrava-se no café Shalom (Paz) em Jerusalém Oriental quando um colono, que se fazia transportar num Toyota, disparou com uma arma automática atingindo-o na cabeça, escapando depois na direcção dos colonatos de Pisgat ou Anatot, segundo testemunhas oculares citadas pelo El País.
No hospital Hadassa de Jerusalém, onde mazen entrou em estado de morte cerebral, a família foi contactada para doar os órgãos do jovem farmacêutico, casado e pai de três filhos. O coração foi dar vida a Yigal cohen, de 34 anos, residente em Jerusalém Ocidental; os seus pulmões foram para um israelita de 62 anos; o fígado destinou-se a outro de 61 anos, o pâncreas e um rim foram para uma israelita de 30 anos e o outro rim para um jovem israelita de 13 anos.
Tamar Ashkenazi, coordenador do Centro de Transplantes de Israel, afirmou que as cirurgias tinham corrido bem e que os doentes estavam a reagir.
“Todos os seres humanos fazem parte de uma mesma família e somos iguais” afirmou Lufti Julani, de 72 anos, pai de Mazen, e adianta: “doei os órgãos do meu filho para salvar a vida de outros, independentemente de serem judeus, cristãos ou muçulmanos, apesar do meu filho ter sido morto pela bala de um colono”.
Devid cohen, pai do receptor do coração de mazen, não escondeu ter ficado “muito surpreendido” com o gesto: “… realmente comovente, especialmente nestes dias quando as relações são tão tensas. Esta nobre família chega a ensinar-nos que é possível fazer as coisas de modo diferente.”
Cohen disse ainda que gostaria de conhecer os pais e irmãos de Mazen. A visita ocorreu há dois dias: a filha mais velha de Mazen, de quatro anos e meio, não soube nem percebeu a razão daquela ida a uma casa estranha: ninguém lhe disse que o pai fora morto por um colono, mas que “foi viajar e quando vier traz-te uma prenda.”»

Lumanea Raposo, Diário de notícias, 9 de Junho de 2001

Este é um grande exemplo de boa vontade. Se todas as pessoas fossem assim grande parte das guerras acabariam por falta de combatentes! É um exemplo que deve ser aplaudido!