Um espaço de opinião e reflexão, que me permite partilhar os meus pensamentos, frustrações e alegrias. Mas aviso desde já, se pensam aprender alguma coisa aqui, vão ficar completamente desiludidos.

sábado, 28 de maio de 2011

Adoro Ouvir Chover

Está agora a passar uma trovoada aqui por cima. Algumas pessoas ficam assustadas, mas eu adoro. Acho muito relaxante ouvir chover, ouvir os trovões, ver o clarão dos relâmpagos. Em miúda cheguei a ter medo da trovoada, mas agora gosto muito. Então quando posso estar em casa, sossegadinha, só a ouvir é mesmo bom! Assim que ouço um aumento da intensidade da chuva é ver-me a correr para a janela para ver!
Em resumo, estou feliz!

Baunilha e Chocolate - Carta VI (Última)

Milão, 20 de Junho

Querida Pepe,

O Luca está contigo, a Lucia e o Daniele estão comigo pela última noite. Amanhã a Sofia  vem buscar a nossa filha para umas férias de barco, no Mediterrâneo. Eu vou levar o Daniele ao aeroporto de Malpensa. Chega a Dublim num voo da Alitalia e dali vai ter a Galway de comboio. Na estação estará o Patrick, o filho mais velho de Mrs. Margareth O’donnell, que o levará até à quinta deles, a poucos quilómetros da cidade. Assim, vou ficar sozinho com a Priscilla, porque o teu pai também se foi embora. Tínhamos combinado ir a Roma juntos, eu para discutir uma oferta de trabalho na RAI, e ele para enfrentar a mulher.
À última hora não me apeteceu ir. Pensei que, no caso de se chegar a algum acordo, eu teria de me transferir para Roma. Francamente, não me apetece afastar-me dos miúdos cinco dias por semana. A Lucia, o Daniele e o Luca, até tu teres ido embora, não tiveram pai. Agora, por sorte minha e deles, já têm, e não tenciono voltar a repetir os erros do passado. Estou a descobrir o que significa amar verdadeiramente os próprios filhos. E sei que te devo isso a ti.
Estou contente por não teres conseguido encontrar a minha última carta. Era uma carta muito feia e não merecia ser lida. Se chegares a encontrá-la, rasga-a sem a abrires. Peço-te isso como um favor pessoal.
Soube há pouco pelos jornais que Raimondo Teodoli faleceu. Lemento por ti. Hoje de manhã li as cartas de Mortimer que tens guardadas na gaveta da escrivaninha. Não fui correcto, eu sei.  Já me perdoaste muita coisa. Se puderes, perdoa-me mais esta. Não fui motivado pela curiosidade, mas pelo desespero, pela necessidade de compreender. Amo-te mais do que tu acreditas.
Nestes últimos dias estive mais do que uma vez a ponto de te telefonar. Não o fiz apenas porque me proibiste de o fazer.
Abraça por mim o nosso pequenino.

Andrea

Citações XCIX

«Faça amizades com quem estiver pronto a censurá-lo.»

Nicolas Boileau

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Parabéns R.

O meu afilhado fez hoje 3 aninhos! Muitos parabéns meu querido! (Como é óbvio ele não lê isto, mas é simbólico, vocês percebem!)
Fomos todos jantar a casa dele e acreditem ele sozinho fez a festa, lançou os foguetes e apanhou as canas!!! Aquele miúdo tem uma energia que nunca mais acaba! Até fiquei cansada!

Finalmente!

Hoje finalmente terminou a saga da peça do puzzle perdida! Chegou hoje! Quando cheguei a casa do trabalho e vi o puzzle todo montadinho, sem faltar peça nenhuma até fiquei emocionada! Chegou durante a tarde, pelo correio, a minha mãe recebeu a carta e montou a peça!
Demorou mais de um mês (como eles tinham dito) mas acabou por chegar. Pedida num site inglês, veio de Espanha para cá. A viagem ainda foi grandita mas não se perdeu! Que alívio! Já pensava que ia ficar com o puzzle por acabar!
Agora só falta colar e depois pendurar na parede. Quando estiver todo lindo, no lugar de honra da sala eu posto a fotografia.

Baunilha e Chocolate - Carta V

Cesenatico, 15 de Junho

Querido Andrea,

Recebi a tua última carta num momento particularmente difícil. Deixei-a de lado para a ler quando estivesse um pouco mais serena. Agora já estou. Mas a tua carta desapareceu. Não consigo encontrá-la. Não imaginava que isso me incomodasse tanto. Mas as coisas são mesmo assim. Não queria ver-te nem falar contigo, mas as cartas eram e são uma maneira de dialogar civilizadamente à distância e conseguirmos dizer um ao outro aquilo que calámos em dezoito anos de casamento.
Há alguns dias atrás fui a Bérgamo, a casa de Raimondo Teodolli. Foi uma visita breve e traumatizante. Eu sabia que, em todos estes anos, ele não tinha deixado de me esperar, e queria dizer-lhe que não há nenhuma possibilidade de retomar uma história que acabou, porque a minha família é aquilo que eu tenho de mais importante. Encontrei um homem sofredor, gravemente doente. Não lhe disse nada. Amei-o pela sua dor. Sei que não voltarei a vê-lo.
Regressei aqui a meio da noite e não estava com disposição para ler a tua carta. Deixei-a de lado. Na manhã seguinte já não a encontrei. Vasculhei por todo o lado. Nada. Tenho pena.
Sei que tu, o meu pai e os miúdos estão aa arranjar-se muito bem. Isso consola-me.
Começo realmente a acreditar que era necessária uma separação efectiva para esclarecer um pouco as coisas entre nós. Não sei se teremos um futuro juntos. Mas tenho a certeza de que os meus filhos vão ter uma mãe mais responsável. Sofro com a falta deles. Peço-te que me escrevas depressa.

Penelope

Citações XCVIII

«Ninguém consegue apresentar durante muito tempo uma cara à multidão e outra a si próprio sem acabar por não saber qual delas é a verdadeira.»

Nathaniel Howthorne

quinta-feira, 26 de maio de 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Há coisas que me irritam!

Porque é que existem pessoas que são más que nem cobras para os outros e depois esperam que os outros sejam uns amores de pessoas para elas? Porque é que as pessoas que não são capazes de fazer nada pelos outros são as que pensam que os outros têm que fazer tudo por elas?
E depois, pela frente, são todas sorrisinhos e amorosas e falinhas mansas e por trás falam mal dos outros como se não houvesse amanhã!
E porque é que eu tenho que aturar essa gente?!?

Alegoria da Caverna

«Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles: entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género de tapumes que os homens dos “robertos” colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
- Estou a ver – disse ele.
- Visiona também, ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objectos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
- Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que falas – observou ele.
- Semelhantes a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que nestas condições, eles tenham visto, de si mesmos e dos outros, algo mais que as sombras projectadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
- Como não – respondeu ele -, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida’
- E os objectos transportados? Não se passa o mesmo com eles?
- Sem dúvida.
- Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objectos reais, quando designavam o que viam?
- É forçoso.
- E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
- Por Zeus, que sim!
- De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições pensariam que a sombra dos objectos era a verdade.
- É absolutamente forçoso – disse ele.
- Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso sentiria dor, e o encadeamento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objectos que passavam, o forçasse com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objectos vistos outrora eram mais autênticos que os que agora lhe mostravam?
- Muito mais – afirmou.
- Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
- Seria assim – disse ele.
- e se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do sol, não seria natural que ele se doesse e se agastasse, por assim ser arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos encadeados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objectos?
- Não poderia, de facto, pelo menos de repente.
- Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior [que está fora da caverna]. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objectos, reflectidas na água, e, por último, para os próprios objectos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
- Pois!
- Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas ele mesmo, no seu lugar.
- Necessariamente.
- Depois já compreenderia, acerca do Sol, que ele é que causa  as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo [no interior da caverna].
- É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
- E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do “saber” que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
- Com certeza.
- E as honrar e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objectos que passavam, e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele [que havia sido libertado] teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo “servir junto de um homem pobre, como servo da gleba” e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
- Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.
- Imagina ainda o seguinte – prossegui eu. – Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
- Com certeza.
- e se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter  subido ao mundo superior estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?
- Matariam, sem dúvida – confirmou ele.»

Platão, República, 514ª-517ª, Ed. Calouste Gulbenkian, Lisboa

Baunilha e Chocolate - Carta IV

30 de Maio

Querida Penelope,

Estive calado durante alguns dias na tentativa de digerir a tua traição. Não consegui. Passou a fúria, mas não a amargura. Sei que nunca te facilitei a vida, mas que necessidade havia, ao fim de tanto tempo, de me dizeres que te apaixonaste por um homem fantástico? Só o rancor te pode ter levado a esta confissão tardia. Se a tua revelação não foi ditada pela perfídia, o que te levou a fazê-lo?
Tenho sido um companheiro transgressor e um pai ausente. É verdade. Talvez a tua fuga fosse mesmo necessária. Tive oportunidade de pensar, de reflectir, de procurar em mim próprio as razões de tantas atitudes minhas infantis e tolas. Compreendi como te feriram os meus ataques de fúria, a minha incapacidade de ter um confronto razoável contigo e com os nossos filhos. Até percebi a causa de certos comportamentos irracionais que agora, a custo, tento controlar. Se não tivesses ido embora, deixando-me perante os factos, em vez de palavras, provavelmente não chegaria nunca a tomar consciência de um mal-estar que vem de longe. E, portanto, estou-te muito grato por isso.
Mas se é verdade que, durante anos, te feri e te humilhei, é igualmente verdade que tu retribuíste as minhas culpas disparando sobre mim à queima-roupa, como um assassino impiedoso. Deixaste-me definitivamente prostrado.
Minha muito amada Penelope, tenho de dizer uma verdade irrefutável: só amei uma mulher. Tu. E perdi-te para aquele detestável Raimondo Maria Teodoli de San Vitale, que um raio o fulmine.
Neste momento, se ainda consideras que erraste por o teres deixado a ele para continuares a viver comigo, estou pronto para te dar o divórcio, assumindo todas as culpas.
Não quero chegar à idade do teu pai contigo a fugir para seguires um amor antigo.

Andrea

Citações XCVI

«Devíamos olhar demoradamente para nós próprios antes de pensarmos em julgar os outros.»

Molière

terça-feira, 24 de maio de 2011

Baunilha e chocolate - Carta III

Cesenatico, 26 de Maio

Querido Andrea,

Reflecti muito antes de responder à tua carta, que me comoveu pela franqueza com que a escreveste. Finalmente decidi: com a mesma serenidade, tenho de te contar aquilo que calei durante tanto tempo, mesmo tratando-se de uma história acabada, que pertence ao passado.
Há alguns anos encontrei um homem por quem me apaixonei. Houve um momento em que cheguei mesmo a pensar deixar-te. É  Raimondo Teodoli, mais conhecido por Mortimer. São suas as cartas que encontraste na gaveta da minha escrivaninha. É uma história que acabou há  sete anos. Não te traí por me dares pouca atenção. Aconteceu, simplesmente, porque o destino me fez encontrar um homem fantástico. Amei-o apaixonadamente. Deixei-o ao fim de um ano de dúvidas e sofrimento, porque estava convencida de que tu eras o homem da minha vida.
Quis dizer-te isto para esclarecer melhor a nossa relação. Se a história de Gemma e da tua família, guardada durante tanto tempo, te tem causado desconforto e, por consequência, também a mim e aos nossos filhos, talvez tenha chegado o momento de a contares.
Sei que tens encontrado muitas dificuldades, mas espero que as resolvas com a ajuda dos miúdos.
Espero notícias.

Penélope 

Palestiniano Dá Vida a Quatro Israelitas

Estava a folhear umas coisas que tinha lá por casa e encontrei isto. Achei que devia partilhar. Pode ser que inspire alguém.

«”O meu coração é árabe”, poderá afirmar Cohen, salvo por Mazen Julani, morto por um colono.

Um palestiniano, morto por um colono, deu a vida a quatro israelitas. A família de Mazen Julani, oriundo de Hebron, afirma que a doação dos seus órgãos “foi simplesmente um acto humanitário” e não uma mensagem política.
A situação não é inédita, mas assume um especial significado quando ocorre num momento em que o ódio, raiva e dor parecem afastar cada vez mais os dois povos. Julani, de 32 anos, encontrava-se no café Shalom (Paz) em Jerusalém Oriental quando um colono, que se fazia transportar num Toyota, disparou com uma arma automática atingindo-o na cabeça, escapando depois na direcção dos colonatos de Pisgat ou Anatot, segundo testemunhas oculares citadas pelo El País.
No hospital Hadassa de Jerusalém, onde mazen entrou em estado de morte cerebral, a família foi contactada para doar os órgãos do jovem farmacêutico, casado e pai de três filhos. O coração foi dar vida a Yigal cohen, de 34 anos, residente em Jerusalém Ocidental; os seus pulmões foram para um israelita de 62 anos; o fígado destinou-se a outro de 61 anos, o pâncreas e um rim foram para uma israelita de 30 anos e o outro rim para um jovem israelita de 13 anos.
Tamar Ashkenazi, coordenador do Centro de Transplantes de Israel, afirmou que as cirurgias tinham corrido bem e que os doentes estavam a reagir.
“Todos os seres humanos fazem parte de uma mesma família e somos iguais” afirmou Lufti Julani, de 72 anos, pai de Mazen, e adianta: “doei os órgãos do meu filho para salvar a vida de outros, independentemente de serem judeus, cristãos ou muçulmanos, apesar do meu filho ter sido morto pela bala de um colono”.
Devid cohen, pai do receptor do coração de mazen, não escondeu ter ficado “muito surpreendido” com o gesto: “… realmente comovente, especialmente nestes dias quando as relações são tão tensas. Esta nobre família chega a ensinar-nos que é possível fazer as coisas de modo diferente.”
Cohen disse ainda que gostaria de conhecer os pais e irmãos de Mazen. A visita ocorreu há dois dias: a filha mais velha de Mazen, de quatro anos e meio, não soube nem percebeu a razão daquela ida a uma casa estranha: ninguém lhe disse que o pai fora morto por um colono, mas que “foi viajar e quando vier traz-te uma prenda.”»

Lumanea Raposo, Diário de notícias, 9 de Junho de 2001

Este é um grande exemplo de boa vontade. Se todas as pessoas fossem assim grande parte das guerras acabariam por falta de combatentes! É um exemplo que deve ser aplaudido!

Citações XCV

«Mais vale um bom amigo do que um tesouro que deixarias encher-se de bolor em qualquer buraco.»

Menandro

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Baunilha e Chocolate - Carta II

24 de Maio

Querida Penelope,

Li a tua carta uma infinidade de vezes. Estou surpreendido e magoado. Nunca esperaria de ti uma pancada assim. Conheço a tua honestidade, por isso sei que escreveste sinceramente aquilo que pensas. Mas, com a mesma sinceridade, devo dizer-te que não sou o monstro que descreves.
Hoje de manhã, quando acordei e não te encontrei, senti-me como uma criança abandonada.
Depois, comecei a reflectir.
Naquele dia comportei-me como um imbecil, insistindo em negar a estúpida história com a Stefania e destruindo o vidro da porta.
Foi sempre o medo de te perder que me fez reagir com violência. Os modelos da família de que provenho devem ter tido o seu peso nisto tudo. Não é uma justificação, é uma exlicação.
Depois de ler a tua carta, pensei que tinha enlouquecido. Precisei de várias horas para perceber que só um grande sofrimento te poderia ter empurrado para uma decisão tão drástica.
Proibiste-me de te ir buscar. Recusas-te a falar comigo ao telefone. Em suma, puseste-me de castigo. Espero sinceramente demonstrar-te que posso mudar.
Pela primeira vez, creio ter sido sincero com os nossos filhos. Tive de o ser porque aquelas três pestes me fizeram compreender claramente que me consideram responsável pela tua fuga. Posso não lhes dar razão?
Querida Pepe, fiz-te sofrer, mas nunca deixei de te amar.
Lembro-me de quando fomos a Verona. Tu estavas grávida de Lucia.
Era Janeiro. Estava tanto frio que puseram um aquecedor no nosso quarto de hotel.
Eu tinha de entrevistar Patty Pravo, que não compareceu ao encontro, mandando dizer-me pelo seu agente que estava cansada e tinha dores de  cabeça. Fui ter contigo ao restaurante, à hora de jantar. Estava muito aborrecido. Um maître eficientíssimo propôs-nos um «bacalhau em estufado lento sobre cama de polenta». A descrição fascinou-nos.  No fim da refeição eclipsaste-te por causa de um telefonema. Depois regressaste à mesa com um ar triunfante.
- O café, vamos tomá-lo no hotel – anunciaste. – Patty Pravo está à tua espera no bar.
Entraste como autora de letras no mundo da música ligeira e abandonaste-o rapidamente, mas conservaste algumas amizades. Patty Pravo era uma delas. Naquele momento irritei-me porque tinhas conseguido uma coisa em que eu tinha falhado. Depois, prevaleceu a gratidão. Fiz a mina entrevista e escrevi uma boa peça.
Naquele dia, ao fim de um passeio entre a Igreja de santa Anastasia e a praça Bra, entrámos na loja de um antiquário.
Ofereci-te um pequeno colar do século XIX, feito com pérolas e granadas ligadas por uma malha de ouro escuro. Usaste-o até ao momento do parto. Depois nunca mais o vi. O que lhe aconteceu?
Regressámos ao nosso lindíssimo quarto, cheios de frio e felizes. Enfiámo-nos por baixo dos cobertores de lã e, para te aquecer, apertei-te nos meus braços até que adormeceste. Então levantei-me e afastei a cortina da janela. Vi que estava a nevar. Acordei-te.
Ficámos atrás dos vidros, abraçados, a olhar o espectáculo dos flocos brancos que caíam, silenciosos.
A praça, os carros estacionados, os telhados das casas, tudo ia ficando branco. E nós os dois, muito juntos, com o coração a rebentar de felicidade, sussurrávamos  um ao outro palavras de amor.
Os problemas, entre nós, começaram depois. Quando nasceu a Lucia, passavas os dias e as noites com ela nos braços. Já não tinhas tempo para mim. Senti-me excluído. Em casa apareciam a toda a hora a tua mãe e as tuas amigas. Passavas horas a conversar com elas e a fazer festas à menina. Comigo falavas a custo.
Passavas mais tempo com a Sofia do que comigo. Sempre soubeste da hostilidade que há entre nós os dois. Ela considera-me vazio, e eu sei que ela é uma presunçosa da pior espécie. Nunca percebi como podes ser amiga daquela palerma, de horizontes e aspirações limitadas. Falo da Sofia porque tive a suspeita de que pudesse ter pesado na tua decisão de partir. Depois de tudo, não poderíamos olhar-nos nos olhos, tu e eu, e esclarecer honestamente os nossos problemas? Não, não podíamos. Lembro-me de quantas vezes tentaste ter uma conversa séria comigo, sem nunca teres conseguido, porque eu tinha medo de enfrentar isso.
Só agora me dou conta de como são problemáticos nossos filhos e sei que tenho as minhas responsabilidades em tudo isto. Ia escrever : «as minhas culpas», mas ainda não consigo. Estou a sofrer mais do que imaginas. Deixaste-me perante um mar de problemas que não sei como enfrentar. Para não falar das questões práticas que para ti, certamente, são banalidades. Pensa no zoo desta casa, por exemplo. Quantas vezes por dia é preciso levar o cão à rua? É mesmo necessário que durma na cama com o Luca? Como é que se prepara a comida dele? O Cip e o Ciop, como é que se trata deles? Achas que a Priscilla sabe alguma coisa disso? E os peixes? Luca disse-me que a fêmea vermelha está grávida e que é preciso prepara no aquário uma rede para isolar os peixinhos, para evitar que os grandes os comam. Isto é o que diz o Luca. Será verdade? E onde é que eu vou encontrar a rede? Por sorte, é o Daniele quem se ocupa pessoalmente da Igor, aquela cobra nojenta. Depois há os outros problemas todos: o psicólogo e as aulas de flamenco da Lucia, o infantário e as aulas de natação do Luca, a aversão de Daniele em relação à escola. O que devo fazer? Bater-lhes ou fazer-lhes festas? Com a tua mãe já percebi que não posso contar. Em relação à minha, é melhor nem falar. Pepe, meu amor, que ideia foi a tua? Como é que vamos sobreviver sem ti? Sempre soube que rãs preciosa. Agora sei como és indispensável. És a mulher da minha vida. Amo-te e estou pronto para tudo, se puder recuperar o teu amor. Dá-me notícias tuas, por favor.
Vou mandar esta carta em correio urgente. Quero que a recebas depressa.
Um beijo.

Andrea

P.S. 1
Esta noite o Luca teve uma crise de asma e tive de o levar à urgência. Agora está bem. O médico de servilo aconselhou-me a falar com um psicólogo, porque a sua perturbação é psicossomática, não fisiológica, e é causada pela relação problemática dos pais. Sabias disso?
P.S. 2
Quem é o Mortimer? Encontrei um maço de cartas dele. Não as li.
P.S. 3
Qualquer dia conto-te a história da Gemma. Acho que o facto de ter tentado esquecê-la me fez mal. Indirectamente, prejudicou-te também a ti e aos nossos filhos.

Citações XCIV

«Temos de aprender a viver todos como irmãos ou morreremos todos como loucos.»

Martin Luther King

domingo, 22 de maio de 2011

Citações XCIII

«Deixar de fumar é a coisa mais fácil do mundo. Sei muito bem do que se trata, já o fiz cinquenta vezes.»

Mark Twain

Baunilha e Chocolate - Carta I

24 de Maio, Domingo

Querido Andrea, desgraça da minha vida,

Tantas vezes ameacei ir embora, e nunca o fiz. Agora, vou-me embora. Sabes como sou lenta, mas tenaz, nas minhas decisões.
Em dezoito anos de casamento fui medindo o teu egoísmo, a tua capacidade de mentir, os teus medos, a tua infantilidade.
Não quero saber como te vais arranjar sem mim, uma vez que, sozinho, não és sequer capaz de abrir uma lata de cerveja.
Se  quiseres sobreviver, vais aprender a ocupar-te de ti próprio, dos nossos três filhos, do zoo da casa. Não vai ser tarefa fácil dar ordens à empregada, que tu amavelmente defines como «a cretina», nem entenderes-te com a irmã Alfonsina, que nos ameaça com o castigo perpétuo se não baptizarmos o pequeno Luca, com a tua mãe, que desaparece de casa dia sim dia não e depois é preciso esquadrinhar a cidade para a encontrar, com o psicólogo da Lucia, com o Daniele, com brincos por todo o lado e que, aos quinze anos, ainda faz chichi na cama, com as contas que há para pagar nos Correios e as que há para pagar no banco, com os justificativos do IRS e com a lista diária das compras. Vais ter de andar de um lado para o outro, entre a escola e o infantário, entre a aula de judo para o Daniele, a piscina municipal para o Luca e a escola de dança para a Lucia. Vais ter de arranjar um canalizador para o autoclismo que verte e que neutralizar legiões de formigas gigantes que saem de um buraco na varanda e que são refractárias a todo e qualquer veneno.
Vais ter de enfrentar tudo isto e mais ainda, porque eu não vou estar aí a tentar, inutilmente, tapar as  fendas de um barco destinado ao naufrágio.
Pergunto a mim própria como conseguirás encontrar o tempo e a vontade para praticar os teus desportos favoritos: as mentiras, as traições, o desinteresse pelos nossos filhos.
Tirando um breve e maravilhoso parêntesis, que se passou há muito tempo, fui durante anos a  escrava devora de um patrão arrogante.
Sei que fui tua cúmplice neste jogo perverso e sei que suportei ofensas e injustiças porque tinha medo de ficar sozinha.
No fim de tudo, a tua falta de respeito foi mais forte do que o meu medo da solidão.
A minha condição é idêntica à de milhões de outras mulheres. Somos todas vítimas conscientes e vivemos na esperança de um amanhã melhor, de um golpe de magia que consiga mudar a situação.
Quantas vezes, cansada de engolir sapos, tentei demover-te do teu egoísmo. Foi tudo inútil. Compreendi  que as palavras não servem de nada, escorrem como a água. O que conta são os factos. Por isso decidi agir.
Ao fim de dezoito anos de casamento, já não me fascinas.
Como poderia imaginar que o homem por quem me apaixonei era apenas uma criança que se recusa a crescer?
Quando nos casámos, eu era demasiado jovem e insegura para compreender isso.
Culpa minha, da minha necessidade de ser aprovada por toda a gente, sobretudo pela minha mãe. Ela queria para mim um marido tradicional. Eu fiz-lhe a vontade.
E encontrei como companheiro o típico macho tirano que põe e dispõe da mulher, enquanto que os nossos filhos são aquilo que me poderia acontecer de mais complicado Ninguém se conforma com as suas próprias derrotas e não há dúvida de que a Lucia, o Daniele e o Luca são a prova do meu fracasso. Mas já não tenho vontade de me sentir culpada por isso. A partir de hoje, vais ter de te entender com eles.
Amo-os apaixonadamente, como te amei a ti. Deixo-os com dor e afasto-me de ti com um sentimento de libertação.
Já não suporto a tua duplicidade, o teu narcisismo, o teu falso papel de pai-companheiro, generoso, compreensivo, que compra para os filhos os presentes que eu lhes nego, que ouve as suas mentiras, grandes e pequenas, com uma benevolência que não te pertence.
Tu és o pai bom, eu sou a mãe má. Tu és o que permite, eu sou a que proíbe.
De cada vez que ouso encostar-te à parede, ficas furioso e partes tudo aquilo a que deitas a mão.
A fúria é a única resposta que sabes dar quando te chamo às tuas responsabilidades. Depois vais-te embora, batendo com a porta de casa. Houve um tempo em que temia que não voltasses. Eu era  a vítima que tem medo de ser abandonada pelo próprio carrasco. Escondi piedosamente a tua infantilidade aos nossos filhos, mas eles perceberam e estão confusos e perdidos.
Desgraça da minha vida, não imaginas o rancor que acumulei e a dor que me causa abandonar os meus filhos. Ai de ti, se não tomares conta deles. Vou para Cesenatico, para casa da minha avó, porque preciso de estar sozinha.
Diz aos nossos filhos que me podem telefonar em qualquer altura, quer para o telemóvel, quer para casa. Naquilo que te diz respeito, porém, deves aparar o meu jogo e fazer de conta que fiz umas férias para descansar. Não penses em vir buscar-me. Se o fizesses, digo-te já que voltaria apenas para levar as crianças e deixar-te para sempre. Por isso, se queres à nossa família, não fales nem apareças.
Agora estás sozinho com as tuas responsabilidades e, pela primeira vez, com os teus filhos. Espero que se possam ajudar uns aos outros.

Penelope

Baunilha e Chocolate

Não sei se já leram o livro Baunilha e Chocolate da Sveva Casati Modignani. Eu li já uns anos e foi um dos que já reli algumas vezes. Hoje andava a remexer as minhas estantes e dei de caras com ele e lembrei-me das cartas que os personagens trocam entre si. Os senhores responsáveis pelos Direitos de Autor que me perdoem mas eu vou ter que partilhar.


«Baunilha e chocolate: um contraste de cores e de sabores... que, no entanto, combinam muito bem. Como acontece, por vezes, no amor. Como aconteceu com Penelope e Andrea, duas pessoas de carácter e sensibilidade muito diferentes que, apesar disso, se amaram, casaram, tiveram três filhos e juntos partilharam os altos e baixos de um casamento que dura já há dezoito anos. Mas a certa altura a mágica alquimia quebra-se: Penelope, cansada das muitas e mal disfarçadas traições do marido, desiludida com o seu comportamento egoísta e infantil, abandona-o para reflectir sobre a forma de salvar a sua união e para o deixar a braços com os mil e um problemas da família, que até àquele momento caíram apenas sobre os seus ombros. Agora é a vez de ele superar as dificuldades. Para Andrea é um choque, porque, no fundo, nunca deixou de considerar Penelope como a única mulher da sua vida, aquela com quem pode sempre contar. Para ambos, a separação é a oportunidade para fazerem um balanço das respectivas existências, para olharem para dentro de si mesmos com uma sinceridade impiedosa e para reviver o próprio passado, tentando compreender a causa de tantos erros e de tantas escolhas mal feitas. Mas neste percurso penoso, emerge pouco a pouco aquilo que ambos sempre souberam: o amor que os uniu ainda está vivo. Ferido, maltratado, resistiu aos assaltos do tempo e pode ainda gerar alegria e felicidade.»