Um espaço de opinião e reflexão, que me permite partilhar os meus pensamentos, frustrações e alegrias. Mas aviso desde já, se pensam aprender alguma coisa aqui, vão ficar completamente desiludidos.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Citações CI

«Todo o impulso que nos apressamos a estrangular vem açoitar-se-nos no espírito e envenena-nos.»

Oscar Wilde

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Baunilha e Chocolate - Final

Os senhores dos direitos de autor que me perdoem (encarem como publicidade), mas eu vou ter que pôr o final aqui, depois de toda esta partilha. E aviso já, isto que aparece a seguir é o último capítulo do livro Baunilha e Chocolate, por isso, se estão a pensar ler este livro, não continuem! Eu sei que nunca se deve revelar finais e tal, mas eu sou péssima nisso, nunca consigo evitar. Já sabem, se não querem saber o final de um livro ou filme que eu conheça não falem comigo acerca disso.

«Penélope foi deitar-se no momento em que os pais regressavam a casa. Aproximou-se de Luca, que dormia a seu lado, e abraçou-o.
- Parece que vais ter um irmãozinho. Ou talvez uma irmãzinha – sussurrou-lhe ao ouvido.
Nos dias seguintes, o teste de urina confirmou a gravidez.
Uma manhã, de maddrugada, ouviu tocar o telefone no vestíbulo. Precipitou-se pelas escadas abaixo, a barafustar contra a sua preguiça, que a fazia adiar o pedido de um telefone suplementar para o andar superior.
- Estou na praia. Por que não vens ter comigo? – Era Andrea.
- Vou já – respondeu.
No quarto do primeiro andar chegou a voz da sua mãe.
- Quem foi que telefonou a esta hora? – perguntou, aborrecida.
-Foi engano. Dorme – disse Penelope.
Abriu devagar a porta de casa, saiu para o jardim, montou na bicicleta e começou a pedalar velozmente em direcção à praia. Cesenatico, de madrugada, era a mesma de sempre: uma cidade lunar. Abandonou a bicicleta em frente da porta do bar, que ainda estava corrida. Contornou o edifício branco e chegou à praia. Os guarda-sóis estavam fechados, as espreguiçadeiras e as camas dobradas e encostadas às mesas. O Sol nascia à superfície da água. Andrea de jeans e t-shirt de algodão, veio aos seu encontro.
Parou a dois passos dela e sorriu-lhe.
- Estás muito bem – disse.
- Estou ainda em camisa de noite – replicou.
- Vamos tomar um banho? – propôs o marido, enquanto tirava a camisola.
- Achas que desta vez conseguimos chegar ao Sol? – perguntou ela, correndo em direcção ao mar que se estendia em ondas planas, a acariciar a areia.
Nadaram em sincronia até ao largo. Depois viraram-se de costas, a olhar o Sol que se erguia rapidamente no céu.
- Pensava que um momento tão bonito não se repetiria jamais1 – exclamou Andrea.
- Às vezes, a felicidade regressa – afirmou ela. Deu uma cambalhota e recomeçou a nadar em direcção à praia.
Saíram de água a tremer.
- Na cabina há roupões para os dois – anunciou ela. Naquele momento abriu o bar. O banheiro, que tantos anos antes tentara seduzir Penelope, apareceu à porta e viu-os.
-São madrugadores, vocês os dois – observou, divertido.
- Tens bolos frescos? – perguntou-lhe Andrea.
- Chegaram agora mesmo. Vou ligar a pressão da máquina para vos preparar o cappucino do costume – prometeu.
Na cabina com Andrea, Penelope libertou-se da camisa enchacada e envolveu-se nun roupão de felpa.
- És muito bonita. Há vinte anos não me deixaste ver-te nua – brincou Andrea. Penelope sorriu-lhe e saiu da cabina.
Dirigiram-se para o bar e ela disse: - Há vinte anos não tínhamos tido três filhos os dois. Depois, em voz baixa, acrescentou: - Agora vem aí um quarto.
O marido segurou-a por um braço, obrigou-a a virar-se e olhou-a com uma expressão de felicidade absoluta.
- Estás grávida?
Ela confirmou.
- e só agora é que me dizes isso? – exclamou com uma gargalhada cheia de alegria que, de repente, se extinguiu. Largou-lhe o braço e perguntou: - Quem é o pai?
Penélope calou-se. Dirigiu o olhar para a cintilante extensão do mar e sussurrou: - Não sei.
Andrea não reagiu. Sabia que a mulher estava a dizer a verdade.
Ela baixou os olhos e encostou-se a uma mesa. Sentou-se, apertando no peito o roupão de felpa. Levantou o rosto. O marido inclinou-se sobre ela e pousou os lábios nos cabelos molhados. Pôs-lhe um braço à volta dos ombros e apertou-a contra si.
- Este filho é meu, porque te amo – disse.
Ficaram assim, abraçados, a olhar o céu límpido daquela esplêndida manhã de Junho.
- Ainda não dormiste, pois não? – perguntou Penelope.
- Acabei de trabalhar há três horas. Como é que podia?
- Tens de voltar à cidade?
- Tenho vontade de abraçar o Luca. E preciso de estar contigo. Vamos para casa.»

Citações C

«Toda a gente é capaz de sentir os sofrimentos de um amigo. Ver com agrado os seus êxitos exige uma natureza muito delicada.»

Oscar Wilde

sábado, 28 de maio de 2011

Fiquei Indecisa!

Hoje jogou-se a final da Liga dos Campeões. Um Barcelona - Manchester United. Confesso que fiquei indecisa, gosto dos dois e não sabia por quem torcer. Mas acho que o Barcelona foi um justo vencedor. Realmente ninguém pára esta equipa! Incríveis! Invencíveis!

Heroísmo?

«Vou contar-te um caso dramático. Já ouviste falar das térmitas, essas formigas-brancas que, em África, constroem formigueiros impressionantes, com vários metros de altura e duros como pedra. Uma vez que o corpo das térmitas é mole, por não ter a couraça de quitina que protege os outros insectos, o formigueiro serve-lhes de carapaça colectiva contra certas formigas inimigas, mais bem armadas do que elas. Mas por vezes um dos formigueiros é derrubado, por causa de uma cheia ou de um elefante (os elefantes, que havemos nós de fazer, gostam de coçar os flancos nas termiteiras9. A seguir as térmitas-operário começam a trabalhar para reconstruir a fortaleza afectada, e fazem-no com toda a pressa. Entretanto, já que as grandes formigas inimigas se lançam ao assalto. As térmitas-soldado saem em defesa da sua tribo e tentam deter as inimigas. Como nem no tamanho nem no armamento podem competir com elas, penduram-se nas assaltantes tentando travar o mais possível o seu avanço, enquanto ferozes mandíbulas invasoras as vão despedaçando. As operárias trabalham com toda a velocidade e esforçam-se por fechar de novo a termiteira derrubada… mas fecham-na deixando de fora as pobres e heróicas térmitas-soldado, que sacrificam as suas vidas pela segurança das restantes formigas. Não merecerão estas formigas-soldado pelo menos uma medalha? Não será justo dizer que são valentes?
                                                                                                                                                           
Mudo agora de cenário, mas não de assunto. Na Ilíada, Homero conta a história de Heitor, o melhor guerreiro de Tróia, que espera a pé firme, fora das muralhas da sua cidade, Aquiles, o enfurecido campeão dos Aqueus, embora sabendo que Aquiles é mais forte do que ele e que provavelmente vai matá-lo. Fá-lo para cumprir o seu dever, que consiste em defender a família e os concidadãos do terrível assaltante. Ninguém tem dúvidas: Heitor é um herói, um homem valente como deve ser. Mas será Heitor heróico e valente da mesma maneira que as térmitas-soldado, cuja gesta milhões de vezes repetida nenhum Homero se deu ao trabalho de contar? Não faz Heitor, afinal de contas, a mesma coisa que qualquer uma das térmitas anónimas? Porque nos parece o seu valor mais autêntico e mais difícil do que o dos insectos? Qual é a diferença entre um e outro caso?
Muito simplesmente, a diferença assenta no facto de as térmitas-soldado lutarem e morrerem porque têm que o fazer, sem que possam evitá-lo (como a aranha come a mosca). Heitor, por seu lado, sai para enfrentar Aquiles porque quer. As térmitas-soldado não podem desertar, nem revoltar-se, nem fazer cera para que as outras vão em seu lugar. Estão programadas necessariamente pela Natureza para cumprirem a sua heróica missão. O caso de Heitor é disitnto. Poderia dizer que está doente, ou que não tem vontade de se bater com alguém mais forte do que eles. Talvez os seus concidadãos lhe chamassem cobarde e o considerassem insensível ou talvez lhe perguntassem que outro plano via ele para deter Aquiles, mas é indubitável que Heitor tem a possibilidade de se recusar a ser herói. Por muita pressão que os restantes exercessem sobre ele, ele teria sempre maneira de escapar daquilo que se supõe que deve fazer: não está programado para ser herói, nem o está seja que Homem for. Daí que o seu gesto tenha mérito e que Homero nos conte a sua história com uma emoção épica. Ao contrário das térmitas, dizemos que Heitor é livre e por isso admiramos a sua coragem.»

Ferrnando Savater, Ética para um Jovem, Ed. Presença, Lisboa, pp. 21-22

Adoro Ouvir Chover

Está agora a passar uma trovoada aqui por cima. Algumas pessoas ficam assustadas, mas eu adoro. Acho muito relaxante ouvir chover, ouvir os trovões, ver o clarão dos relâmpagos. Em miúda cheguei a ter medo da trovoada, mas agora gosto muito. Então quando posso estar em casa, sossegadinha, só a ouvir é mesmo bom! Assim que ouço um aumento da intensidade da chuva é ver-me a correr para a janela para ver!
Em resumo, estou feliz!

Baunilha e Chocolate - Carta VI (Última)

Milão, 20 de Junho

Querida Pepe,

O Luca está contigo, a Lucia e o Daniele estão comigo pela última noite. Amanhã a Sofia  vem buscar a nossa filha para umas férias de barco, no Mediterrâneo. Eu vou levar o Daniele ao aeroporto de Malpensa. Chega a Dublim num voo da Alitalia e dali vai ter a Galway de comboio. Na estação estará o Patrick, o filho mais velho de Mrs. Margareth O’donnell, que o levará até à quinta deles, a poucos quilómetros da cidade. Assim, vou ficar sozinho com a Priscilla, porque o teu pai também se foi embora. Tínhamos combinado ir a Roma juntos, eu para discutir uma oferta de trabalho na RAI, e ele para enfrentar a mulher.
À última hora não me apeteceu ir. Pensei que, no caso de se chegar a algum acordo, eu teria de me transferir para Roma. Francamente, não me apetece afastar-me dos miúdos cinco dias por semana. A Lucia, o Daniele e o Luca, até tu teres ido embora, não tiveram pai. Agora, por sorte minha e deles, já têm, e não tenciono voltar a repetir os erros do passado. Estou a descobrir o que significa amar verdadeiramente os próprios filhos. E sei que te devo isso a ti.
Estou contente por não teres conseguido encontrar a minha última carta. Era uma carta muito feia e não merecia ser lida. Se chegares a encontrá-la, rasga-a sem a abrires. Peço-te isso como um favor pessoal.
Soube há pouco pelos jornais que Raimondo Teodoli faleceu. Lemento por ti. Hoje de manhã li as cartas de Mortimer que tens guardadas na gaveta da escrivaninha. Não fui correcto, eu sei.  Já me perdoaste muita coisa. Se puderes, perdoa-me mais esta. Não fui motivado pela curiosidade, mas pelo desespero, pela necessidade de compreender. Amo-te mais do que tu acreditas.
Nestes últimos dias estive mais do que uma vez a ponto de te telefonar. Não o fiz apenas porque me proibiste de o fazer.
Abraça por mim o nosso pequenino.

Andrea

Citações XCIX

«Faça amizades com quem estiver pronto a censurá-lo.»

Nicolas Boileau

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Parabéns R.

O meu afilhado fez hoje 3 aninhos! Muitos parabéns meu querido! (Como é óbvio ele não lê isto, mas é simbólico, vocês percebem!)
Fomos todos jantar a casa dele e acreditem ele sozinho fez a festa, lançou os foguetes e apanhou as canas!!! Aquele miúdo tem uma energia que nunca mais acaba! Até fiquei cansada!

Finalmente!

Hoje finalmente terminou a saga da peça do puzzle perdida! Chegou hoje! Quando cheguei a casa do trabalho e vi o puzzle todo montadinho, sem faltar peça nenhuma até fiquei emocionada! Chegou durante a tarde, pelo correio, a minha mãe recebeu a carta e montou a peça!
Demorou mais de um mês (como eles tinham dito) mas acabou por chegar. Pedida num site inglês, veio de Espanha para cá. A viagem ainda foi grandita mas não se perdeu! Que alívio! Já pensava que ia ficar com o puzzle por acabar!
Agora só falta colar e depois pendurar na parede. Quando estiver todo lindo, no lugar de honra da sala eu posto a fotografia.

Baunilha e Chocolate - Carta V

Cesenatico, 15 de Junho

Querido Andrea,

Recebi a tua última carta num momento particularmente difícil. Deixei-a de lado para a ler quando estivesse um pouco mais serena. Agora já estou. Mas a tua carta desapareceu. Não consigo encontrá-la. Não imaginava que isso me incomodasse tanto. Mas as coisas são mesmo assim. Não queria ver-te nem falar contigo, mas as cartas eram e são uma maneira de dialogar civilizadamente à distância e conseguirmos dizer um ao outro aquilo que calámos em dezoito anos de casamento.
Há alguns dias atrás fui a Bérgamo, a casa de Raimondo Teodolli. Foi uma visita breve e traumatizante. Eu sabia que, em todos estes anos, ele não tinha deixado de me esperar, e queria dizer-lhe que não há nenhuma possibilidade de retomar uma história que acabou, porque a minha família é aquilo que eu tenho de mais importante. Encontrei um homem sofredor, gravemente doente. Não lhe disse nada. Amei-o pela sua dor. Sei que não voltarei a vê-lo.
Regressei aqui a meio da noite e não estava com disposição para ler a tua carta. Deixei-a de lado. Na manhã seguinte já não a encontrei. Vasculhei por todo o lado. Nada. Tenho pena.
Sei que tu, o meu pai e os miúdos estão aa arranjar-se muito bem. Isso consola-me.
Começo realmente a acreditar que era necessária uma separação efectiva para esclarecer um pouco as coisas entre nós. Não sei se teremos um futuro juntos. Mas tenho a certeza de que os meus filhos vão ter uma mãe mais responsável. Sofro com a falta deles. Peço-te que me escrevas depressa.

Penelope

Citações XCVIII

«Ninguém consegue apresentar durante muito tempo uma cara à multidão e outra a si próprio sem acabar por não saber qual delas é a verdadeira.»

Nathaniel Howthorne

quinta-feira, 26 de maio de 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Há coisas que me irritam!

Porque é que existem pessoas que são más que nem cobras para os outros e depois esperam que os outros sejam uns amores de pessoas para elas? Porque é que as pessoas que não são capazes de fazer nada pelos outros são as que pensam que os outros têm que fazer tudo por elas?
E depois, pela frente, são todas sorrisinhos e amorosas e falinhas mansas e por trás falam mal dos outros como se não houvesse amanhã!
E porque é que eu tenho que aturar essa gente?!?

Alegoria da Caverna

«Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles: entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género de tapumes que os homens dos “robertos” colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
- Estou a ver – disse ele.
- Visiona também, ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objectos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
- Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que falas – observou ele.
- Semelhantes a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que nestas condições, eles tenham visto, de si mesmos e dos outros, algo mais que as sombras projectadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
- Como não – respondeu ele -, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida’
- E os objectos transportados? Não se passa o mesmo com eles?
- Sem dúvida.
- Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objectos reais, quando designavam o que viam?
- É forçoso.
- E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
- Por Zeus, que sim!
- De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições pensariam que a sombra dos objectos era a verdade.
- É absolutamente forçoso – disse ele.
- Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso sentiria dor, e o encadeamento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objectos que passavam, o forçasse com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objectos vistos outrora eram mais autênticos que os que agora lhe mostravam?
- Muito mais – afirmou.
- Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
- Seria assim – disse ele.
- e se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do sol, não seria natural que ele se doesse e se agastasse, por assim ser arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos encadeados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objectos?
- Não poderia, de facto, pelo menos de repente.
- Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior [que está fora da caverna]. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objectos, reflectidas na água, e, por último, para os próprios objectos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
- Pois!
- Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas ele mesmo, no seu lugar.
- Necessariamente.
- Depois já compreenderia, acerca do Sol, que ele é que causa  as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo [no interior da caverna].
- É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
- E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do “saber” que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
- Com certeza.
- E as honrar e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objectos que passavam, e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele [que havia sido libertado] teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo “servir junto de um homem pobre, como servo da gleba” e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
- Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.
- Imagina ainda o seguinte – prossegui eu. – Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
- Com certeza.
- e se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter  subido ao mundo superior estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?
- Matariam, sem dúvida – confirmou ele.»

Platão, República, 514ª-517ª, Ed. Calouste Gulbenkian, Lisboa

Baunilha e Chocolate - Carta IV

30 de Maio

Querida Penelope,

Estive calado durante alguns dias na tentativa de digerir a tua traição. Não consegui. Passou a fúria, mas não a amargura. Sei que nunca te facilitei a vida, mas que necessidade havia, ao fim de tanto tempo, de me dizeres que te apaixonaste por um homem fantástico? Só o rancor te pode ter levado a esta confissão tardia. Se a tua revelação não foi ditada pela perfídia, o que te levou a fazê-lo?
Tenho sido um companheiro transgressor e um pai ausente. É verdade. Talvez a tua fuga fosse mesmo necessária. Tive oportunidade de pensar, de reflectir, de procurar em mim próprio as razões de tantas atitudes minhas infantis e tolas. Compreendi como te feriram os meus ataques de fúria, a minha incapacidade de ter um confronto razoável contigo e com os nossos filhos. Até percebi a causa de certos comportamentos irracionais que agora, a custo, tento controlar. Se não tivesses ido embora, deixando-me perante os factos, em vez de palavras, provavelmente não chegaria nunca a tomar consciência de um mal-estar que vem de longe. E, portanto, estou-te muito grato por isso.
Mas se é verdade que, durante anos, te feri e te humilhei, é igualmente verdade que tu retribuíste as minhas culpas disparando sobre mim à queima-roupa, como um assassino impiedoso. Deixaste-me definitivamente prostrado.
Minha muito amada Penelope, tenho de dizer uma verdade irrefutável: só amei uma mulher. Tu. E perdi-te para aquele detestável Raimondo Maria Teodoli de San Vitale, que um raio o fulmine.
Neste momento, se ainda consideras que erraste por o teres deixado a ele para continuares a viver comigo, estou pronto para te dar o divórcio, assumindo todas as culpas.
Não quero chegar à idade do teu pai contigo a fugir para seguires um amor antigo.

Andrea

Citações XCVI

«Devíamos olhar demoradamente para nós próprios antes de pensarmos em julgar os outros.»

Molière

terça-feira, 24 de maio de 2011

Baunilha e chocolate - Carta III

Cesenatico, 26 de Maio

Querido Andrea,

Reflecti muito antes de responder à tua carta, que me comoveu pela franqueza com que a escreveste. Finalmente decidi: com a mesma serenidade, tenho de te contar aquilo que calei durante tanto tempo, mesmo tratando-se de uma história acabada, que pertence ao passado.
Há alguns anos encontrei um homem por quem me apaixonei. Houve um momento em que cheguei mesmo a pensar deixar-te. É  Raimondo Teodoli, mais conhecido por Mortimer. São suas as cartas que encontraste na gaveta da minha escrivaninha. É uma história que acabou há  sete anos. Não te traí por me dares pouca atenção. Aconteceu, simplesmente, porque o destino me fez encontrar um homem fantástico. Amei-o apaixonadamente. Deixei-o ao fim de um ano de dúvidas e sofrimento, porque estava convencida de que tu eras o homem da minha vida.
Quis dizer-te isto para esclarecer melhor a nossa relação. Se a história de Gemma e da tua família, guardada durante tanto tempo, te tem causado desconforto e, por consequência, também a mim e aos nossos filhos, talvez tenha chegado o momento de a contares.
Sei que tens encontrado muitas dificuldades, mas espero que as resolvas com a ajuda dos miúdos.
Espero notícias.

Penélope 

Palestiniano Dá Vida a Quatro Israelitas

Estava a folhear umas coisas que tinha lá por casa e encontrei isto. Achei que devia partilhar. Pode ser que inspire alguém.

«”O meu coração é árabe”, poderá afirmar Cohen, salvo por Mazen Julani, morto por um colono.

Um palestiniano, morto por um colono, deu a vida a quatro israelitas. A família de Mazen Julani, oriundo de Hebron, afirma que a doação dos seus órgãos “foi simplesmente um acto humanitário” e não uma mensagem política.
A situação não é inédita, mas assume um especial significado quando ocorre num momento em que o ódio, raiva e dor parecem afastar cada vez mais os dois povos. Julani, de 32 anos, encontrava-se no café Shalom (Paz) em Jerusalém Oriental quando um colono, que se fazia transportar num Toyota, disparou com uma arma automática atingindo-o na cabeça, escapando depois na direcção dos colonatos de Pisgat ou Anatot, segundo testemunhas oculares citadas pelo El País.
No hospital Hadassa de Jerusalém, onde mazen entrou em estado de morte cerebral, a família foi contactada para doar os órgãos do jovem farmacêutico, casado e pai de três filhos. O coração foi dar vida a Yigal cohen, de 34 anos, residente em Jerusalém Ocidental; os seus pulmões foram para um israelita de 62 anos; o fígado destinou-se a outro de 61 anos, o pâncreas e um rim foram para uma israelita de 30 anos e o outro rim para um jovem israelita de 13 anos.
Tamar Ashkenazi, coordenador do Centro de Transplantes de Israel, afirmou que as cirurgias tinham corrido bem e que os doentes estavam a reagir.
“Todos os seres humanos fazem parte de uma mesma família e somos iguais” afirmou Lufti Julani, de 72 anos, pai de Mazen, e adianta: “doei os órgãos do meu filho para salvar a vida de outros, independentemente de serem judeus, cristãos ou muçulmanos, apesar do meu filho ter sido morto pela bala de um colono”.
Devid cohen, pai do receptor do coração de mazen, não escondeu ter ficado “muito surpreendido” com o gesto: “… realmente comovente, especialmente nestes dias quando as relações são tão tensas. Esta nobre família chega a ensinar-nos que é possível fazer as coisas de modo diferente.”
Cohen disse ainda que gostaria de conhecer os pais e irmãos de Mazen. A visita ocorreu há dois dias: a filha mais velha de Mazen, de quatro anos e meio, não soube nem percebeu a razão daquela ida a uma casa estranha: ninguém lhe disse que o pai fora morto por um colono, mas que “foi viajar e quando vier traz-te uma prenda.”»

Lumanea Raposo, Diário de notícias, 9 de Junho de 2001

Este é um grande exemplo de boa vontade. Se todas as pessoas fossem assim grande parte das guerras acabariam por falta de combatentes! É um exemplo que deve ser aplaudido!

Citações XCV

«Mais vale um bom amigo do que um tesouro que deixarias encher-se de bolor em qualquer buraco.»

Menandro